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Final: Não dá pra esperar mais (Andy)
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Eu precisava celebrar a minha nova casa. Na verdade, eu queria fortalecer as amizades para que não me sentisse sozinha e o Open House caiu como uma luva. Convidei minhas três melhores amigas da clínica. Quero dizer, 3 amigas e Felipe. Como poderia deixá-lo de fora, se cada sim para o convite era seguido do conselho “Não esqueça o Felipe!”.Aquilo não estava nos meus planos, eu ia fazer uma coisa mulherzinha e, tê-lo no meio desse clube da Luluzinha, me dava crises de ansiedade. Mas, eu tinha fé de que Felipe captasse em seu radar masculino e me poupasse de pensar na roupa certa, na maquiagem certa e no cabelo adequado para recebê-lo. Eu sentia que, se fosse vê-lo, não poderia ser com a mesma roupa que sentaria no tapete da sala com as amigas, comendo pedacinhos de frango empanado frito com cerveja, sem vinho, queijos e velinhas perfumadas. Que fotografia de encontro romântico mais velha! Com Felipe, no mínimo, eu teria que pegar um copo duplo de leite quente com Nescau e umas bolachas. Quem sabe um pão na chapa, se o menininho preferisse. Ri mentalmente com todo sarcasmo. Eu era tão idiota em ter esses pensamentos impuros com ele. Só não me dei conta de que eu nunca tivera que cuidar da cozinha em dias de festas. Era só contratar um Buffett, justamente pra o que eu não tinha dinheiro agora. Não devia ser difícil cozinhar uma massa com molho pronto. Não é assim que falam “servir uma massa” prática? Eu só descobri olhando para as folhas de receita que imprimi da internet molhadas em cima da pia que um cirurgião não aprende fazer um parto na hora da cesárea com um livro ao lado da mesa de instrumentos. Aquela arte deve exigir algum tempo de prática e vestibulares porque o macarrão grudou completamente formando uma massa de amido nojenta. Senti desespero, estava suada, nem tinha escolhido uma roupa ainda e já eram sete horas. Foi quando o primeiro telefone tocou. Vânia me informou que seu filho estava gripado e iria levá-lo para fazer uns exames, a influenza A estava por aí para nos alarmar. Suspirei. Que pena que não viria, mas pelo menos não veria o vexame da minha comida. Ela era o tipo de pessoa que em uma etapa da carreira poderia perfeitamente se contentar em abrir um restaurante chique que seria um sucesso. Quando eu tentei lavar a massa no escorredor como se fosse um balde de roupa que precisa tirar o sabão, o celular vibrou. Agora, era Cláudia se desculpando por um coquetel surpresa da empresa do marido. Depois Paola que substitui às pressas uma amiga em um plantão. Larguei a escorredor na pia e desisti do macarrão. Atirei o telefone no sofá e puxei com raiva o avental pelo pescoço, que deixei em cima do armário. A cozinha ficava ao lado da sala como um anexo, separada por uma bancada de granito cinza.Eu ligaria para pedir uma pizza pequena com guaraná e tentaria acompanhar a novela das oito pela primeira vez. É isso, está decidido. Comemoraria sozinha minha “grande nova vida”.Começou a chover lá fora. Cai no sofá, entre as almofadas e me senti sonolenta. Era bom continuar na camiseta branca curta e no short jeans. Não teria que tomar banho logo, nem me arrumar. Poderia dormir... Mas, ainda havia o cara da pizza. Forcei abrir os olhos e procurei minha bolsa. Era bom separar o dinheiro e deixá-lo na mesinha ao lado da porta. Enquanto me precavia disso o celular tocou. Quem seria? Franzi a testa e, ao pegar o aparelho nas mãos, senti um frio na barriga. Felipe! _Alô? _ equilibrei o celular entre o ombro e a bochecha, sacando as notas da carteira. Só faltava ele para dizer que não poderia vir, como era de se esperar. _Oi, Andy. _ sua voz quente, doce, rouca, masculina e agradável tornou meu coração quase líquido. Desisti da carteira e segurei o celular com a mão, trocando o peso nos calcanhares e olhando as unhas dos pés. _ Ainda está de pé a festa?_Hum... Hei. Como assim “ainda”? _ perguntei. Ele já sabia que não haveria?_Liguei para a Cláudia agora e ela me disse que vocês tinham desistido..._Elas não puderam, não, eu. _ consertei, um pouco mal humorada._Oh, tudo bem, então...Ouvi o ronco do motor de uma moto que passava a toda velocidade na rua e, coincidentemente, escutei o mesmo barulho abafado vindo do fundo da ligação de Felipe._Onde está? _ perguntei. _ afastando a cortina._Bom... tentando saber se sou bem vindo, ainda... _ falou com uma voz risonha do outro lado do portão da rua.Fechei a cortina rapidamente e meu coração pareceu pipoca de microndas explodindo em todas as direções no peito e melado de manteiga. Felipe estava ali fora e eu tinha nada para comer, uma roupa de dia de faxina e a sala um pouco bagunçada._Se não quiser que eu entre, tudo bem, é que eu estou na chuva... _ ouvi sua voz alta do celular na minha mão. Pisquei os olhos e procurei qualquer coisa para dizer._Oh, tudo bem, eu vou aí abrir para você. _ peguei a chave e coloquei na porta. Atravessei o pequeno jardim segurando um guarda-chuva azul marinho de flores. Ele abrigou-se de baixo logo que entrou. _Não estava esperando também pela chuva? _ comentei, esticando o corpo para fechar o portão, sem tentar sair do abrigo, o que fez nossos corpos quase se grudarem. Seu perfume e o corpo quente e molhado formavam um cheiro abatedor. _Vem, vamos para dentro... _ convidei.Assim que chegamos na sala, sob a luz amarelada, vi seu cabelo úmido, caindo na testa, a blusa ensopada nos ombros e o rosto sorridente. Tentei apreender tudo aos poucos, aos pedacinhos. Sua boca muito vermelha, os dentes brancos, a sobrancelha perfeita, o rosto triangular e adorável._Andy? _ estalou os dedos. _ Tem um cara chamando lá fora. Está esperando mais alguém?_Ãnh... _ balancei a cabeça para os lados. _ Deve ser o entregador de pizza._Eu pego para você. _ ofereceu-se e eu ainda em letargia, entreguei-lhe o dinheiro. _ Hei, o guarda-chuva! _ lembrei-o, mas já estava no portão, pegando a caixa._Pelo cheiro, parece estar bom. _ colocou em cima da mesa. _ Você tem alguma blusa, que não seja de babadinhos, nem decote, principalmente, nem rosa, nem vermelha...Ri alto com seu jeito de gesticular como se fosse um estilista. Sempre conseguia roubar boas gargalhadas de qualquer pessoa. Não era possível que eu um dia tivesse conhecido um rapaz tão triste, silencioso e infeliz. Felipe era luz, alegria, alto astral, ânimo. _Vou tentar achar uma bem na moda pra você!_Já sei, querida, alguma que comprou no último Top Fashion Bazar? _ imitou uma voz afetada e se jogou no sofá, cruzando as pernas dramaticamente.Balancei a cabeça e sorri. Não estava me sentindo tão desesperada pela roupa sem graça que vestia, nem o cabelo preso. Pensei que ficaria mais tensa, mas, ele me transmitia serenidade._Que acha dessa, cabe? _ estendi a mão e ele se virou para mim. Estava ao lado da mesa, tinha colocado dois pratos e talheres._Podemos dividir a pizza?_Lógico! Eu não ia comer uma gigante inteira mesmo. _ sorri e vi que tinha colocado nossos pratos um ao lado do outro. _Eu trouxe, naquela sacola... _ sua voz ficou abafada quando segurou a barra da camisa verde que usava e suspendera para passar pelo pescoço. _ Alguns doces que minha mãe faz para casamento. Você vai gostar... Toda mulher adora provar doces, minha casa vive cheia de noivas... _ deixou a camisa em cima de uma cadeira e procurou a que eu tinha lhe dado. Era uma daquelas que se ganha em corridas pela causa do câncer de mama em tamanho GG que acabou no fundo do armário. _Eu vou a-do-rar... _ disse, impressionada com seu corpo semi nu torneado e com uma cor incrível. Ele não era mais meu paciente e isso piorava tudo. _O que acha? Já posso fazer comercial de TV? _ ajeitou o cabelo e pareceu focalizar uma câmera invisível atrás do meu ombro direito. “E você já fez o auto exame hoje?”_Vamos comer! _ dei-lhe um tapinha no peito e o empurrei de leve, esqueci que o equilíbrio para ele era ainda frágil. _Desculpe. _ segurei-o com força, mesmo percebendo que não se abalara tanto com meu impulso. _Desculpe!_Tudo bem. _ manteve sua mão segurando a minha forte contra seu coração e a outra apanhou perdida no ar. _ Eu não vou me esborrachar no chão. _ afagou minha bochecha._Será que é melhor eu tomar banho antes? _ perguntei, refletindo em voz alta._Vai confiar em deixar toda essa pizza sozinha na minha frente? Por favor, vamos comer, depois você toma... Eu não ligo de estar parecendo minha irmã quando acorda._Ah! _ gritei e dei-lhe um soco de leve em seu braço. _ Eu vou agora..._Você está ótimo, essa é a sua casa, o intruso sou eu._Não é um intruso. Adorei ter vindo._Que alívio... Eu já não sabia o que fazer na chuva quando elas me disseram que..._Elas te disseram quê?_Que não podiam vir._Vocês não tramaram isso, tramaram? _ perguntei com os olhos semicerrados._Não! Lógico que não!Peguei o celular e comecei a discar. _O que está fazendo?_ perguntou preocupado._Nada, só checando... _ bati com o pé no chão e os braços cruzados. _Não precisa._Está confirmando?!_A pizza está fria, Andy. _ segurou-me pelos ombros._Elas deixaram de vir a minha festa para que só você viesse?!_Eu sabia que não ia querer que eu estivesse aqui... Eu sou um idiota... _ pegou a camisa._Hei, é verdade, não é?! Elas quiseram empurrar você para cima de mim._Não, Andy, elas não quiseram nada, eu é que..._A idéia, então, foi sua?!_Andy, eu vim para sua casa porque elas me falaram que trariam a família e eu não me sentiria isolado. Só que esqueci o endereço no bolso de outra calça, liguei e me informaram que não viriam. Se tramaram, o que realmente parece ser evidente, eu só fiz parte final do plano... Agora, desculpe se foi tão ruim assim..._Felipe, espera, está chovendo... _ chamei-o, quando já estava na porta da sala. _ Felipe, eu disse vem aqui! _ briguei, puxando-o pela camisa para que não saísse dos limites da varanda escura. Seus olhos estavam faiscando. _ Eu não vou comer a pizza toda sozinha. Vamos entrar. Desculpe, eu não estou uma boa anfitriã hoje...Batemos a porta._Eu preciso realmente de um banho. _entrei e dei-lhe as costas em direção ao banheiro. Quando voltei, já com o cabelo molhado e um vestido, ele estava sentado no sofá, folheando um livro que pegara da prateleira._Depois, podia me emprestar... _ falou distraidamente enquanto levantava os olhos e sua boca parou entreaberta quando me viu. Passou pela minha cabeça todas as possibilidades: eu estar feia, estar bonita, estar exagerada, estar perfumada demais, estar ridícula... Mas, ele achou o termo certo. _ Você está linda._Ãnh-han. _ fiz uma careta de sarcasmo e fui para a mesa. _ Vamos ter que esquentar a pizza. _ abri a caixa e peguei dois pedaços para colocar em um prato. Levei-o até o microondas. Quando acabara de programar um minuto e meio, senti-o atrás de mim. Virei-me o mais naturalmente possível e pensei em puxar um assunto sobre o livro de anatomia que ele estava segurando agora pouco no colo, mas seu olhar bloqueou meu raciocínio. _ Hum... não vai demorar nada para a pizza... _ segurei com as duas mãos a borda da pia, como se estivesse fugindo de um ataque._Isso também não vai demorar nada. _ segurou meu rosto com as duas mãos e o afastou levemente para trás de modo que minha boca se entreabriu e seus lábios quentes possuíram os meus com vontade e fome. Meu sangue foi se tornando quente e violento, arrebentando as ondas de calor nas paredes de todo meu corpo. Meus braços amoleceram e caíram do ponto onde se sustentavam. Procuraram sozinhos o corpo de Felipe. Foi quando correspondi, me entregando ao beijo que também queria muito. Puxei mais a camisa, como se ele pudesse estar mais colado do que era possível.O microondas começou a apitar ruidosamente. _Eu disse que era rápido. _ ele afastou o rosto e sorriu. Levantou os olhos, procurou o botão atrás da minha cabeça e apertou para cancelar a programação. Depois, voltou a me encarar, esperando que fosse a minha vez de levantar os olhos do seu peito e olhasse com alguma reação sobre o que havia acontecido. Mas, eu estava em silêncio, mergulhada no nada. Não tinha nada pra falar, nem pra pedir, nem pra desejar, nem pra reclamar. Eu era um estado de plenitude. Estar ali, colada nele, respirando o mesmo ar parecia ser a única coisa boa, feliz e possível. _ Você quer comer agora? _ perguntou, pensando que eu já tinha me desligado do feitiço do beijo._Ãnh... vamos. _ coloquei o cabelo atrás da orelha, olhei o piso do chão e caminhei para a mesa, esquecendo do prato, mas ele cuidou disso, trazendo-o. Não consegui comer, parada apertando os garfos, eletrizada pelo choque das sensações. _Felipe...Ele levantou os olhos da pizza que já estava terminando de devorar. Levou outro pedaço até o microondas. Ele parecia perfeitamente confortável na minha casa, lidando com a minha cozinha, me beijando, como se fosse assim desde sempre._Hum... _ respondeu e ouvi os bips eletrônicos de programação. Sentou-se novamente ao meu lado. _ Você agora está tentando explicar o que houve? _ perguntou, tranqüilo e resolvido com tudo. _ Posso te ajudar a ter mais... _ fez uma careta, fechando um olho e se inclinou para a frente. _... base para responder aos seus questionamentos. _ beijou-me outra vez, agora mais forte e apaixonado para deixar claro e marcado que era amor e desejo, carinho e possessão. Outra vez o bip do microondas. _ Argghh... _ ele grunhiu. _ Eu devia ter programado para virar uma torrada em potência baixa.Ri e comecei a comer o meu pedaço enquanto já atacava o seu. Desisti de qualquer coisa que eu estava tentando falar. Levei o prato de volta para a pia e deixei os copos lá também. O que eu faria agora? Felipe trouxe a resposta, puxando minha mão para o centro da sala. _Era hora de eu ir embora... _ falou baixinho com o rosto pertinho do meu, devia estar nos seus planos fazer um campo de força que me tirasse às resistências e raciocínio lógico. _ Mas, eu já fiquei muito tempo fora, te esperando. Procurei por você em tantos lugares quando sumiu da clínica. Fiz de tudo para me manter lá até que voltasse. E agora eu não aceito esperar mais nada, porque eu já vivi para ver que não vale a pena deixar de fazer as coisas que se quer. Se eu tenho arrependimento de estar de moto no dia do acidente? Não, não tenho. Só lamento por não ter a adrenalina mais de andar em alta velocidade, fazendo curvas perigosas. Mas, tem uma coisa que me dá a mesma sensação. _ beijou-me agora com uma vontade de quem pede tudo, o mundo inteiro._Felipe... _ falei entre seus lábios, mas ele já não queria saber de nada, havia explicado que não estava disposto a esperar. E por que eu precisava esperar? Já tinha também vivido para não querer deixar de fazer nada. _Diz que não quer... _ intimidou, agarrando minha cintura e puxando meu vestido a procura de um outro tecido mais fino, quente e liso da minha pele._Eu... _ afastei o rosto, com as duas alças deslizando sobre meus ombros, arfando um pouco atordoada. Olhei seus olhos flamejantes e as minhas mãos paradas em seus braços fortes e torneados. _... Não quero que pare...Sorriu e desceu com os lábios para vir agora arrebatador. Fechou os braços no seu pescoço e agarrei seus cabelos. Eu teria que agradecer muito as minhas amigas, porque a nossa festa dera muito certo e durara a noite inteira.Quando abri os olhos essa manhã, abraçada a Felipe, já acordado e sorrindo, senti-me brilhante como o sol da janela._Acho que estamos atrasados para o trabalho. _ riu._Hum... _ apertei os olhos, não queria levantar._Mas, já liguei para lá._Você disse o quê?_Conversei com Vânia. Ela entendeu... e vai atender seus pacientes. Ah, seu filho está bem também._Que bom. Mas, o que vão..._Pensar? _ completou. _ Não importa. _ Acariciou o meu rosto. _ O que me importa agora é nada menos que a felicidade. Nada menos que você. _ beijou o meu pescoço. _Eu esperei muito para estar vivo assim outra vez, como essa noite com você. _Eu também senti o mesmo. _ sorri e peguei sua mão e a beijei. _ Você me ensinou tantas coisas._Você também, lembra?_Fiz um bom trabalho. _ ri e puxei-o mais para mim. _O resto fez sozinho.Felipe era luz, vida, energia, potência, vigor, alegria e riso em minha vida. Superei minhas dores e ele estava lá quando chegou o momento de eu rever Priscila. Ela estava entre a fronteira da vida e a morte no dia do seu parto. Ele me segurou pela mão e me deu todo apoio necessário. Felizmente, ela ficara bem. Não nos falamos depois que a vi no coma. Apenas, foi um passo em direção ao longo caminho do perdão. Mas, eu já me sentia melhor e mais leve.Quando o dia acabava, Felipe estava me esperando na porta da clínica, com a sua mochila de professor de educação física nas costas. Pegava pela mão e caminhávamos juntos, apaixonados e felizes na nossa nova vida doce como um beijo de chocolate.FIMAtrás da Linha do Amor, não percam o próximo livro. Clique aqui>>
Cap 76: Sua Aurea (Felipe)
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Com as duas mãos no bolso, meu cotovelo roçou no braço de Andy, enquanto caminhávamos pela praça que ficava no centro de um pequeno parque cheio de árvores. Ela respirava o ar úmido e parecia querer sempre mais, movendo o peito em busca de mais oxigênio. Olhava os pés enquanto andava e depois mirava o céu, fechando os olhos por causa da luz. Pensei que fosse tagarelar como fazem todas as mulheres, mas estava quieta consigo. Eu não sabia se a conduzia para algum lugar ou era ela que me levava, caminhando lado a lado lentamente. Uma hora se pegou agarrando os cabelos que entrelaçou em uma trança frouxa pendendo sobre o ombro direito. Não havia com que amarrar, por isso, naturalmente se desfazia com o roçar dos movimentos. Parece que se cansou, sentou no banco abraçando-se em proteção, fixou um ponto na sua frente por uns quinze segundos e depois virou o rosto para mim. Seus cílios longos deixavam a luz passar e reluzir em todos os micros espelhos de sua íris. Ainda não tinha rabiscado nenhum desenho daquele foco em grande angular. O nariz magro e fino apontava para lábios rosados e brilhantes. Era tão linda quanto uma daquelas deusas que me ensinaram a copiar das revistas em quadrinhos no curso inicial de desenho. Os traços sensuais e robustos também lhe conferiam um quê de guerreira. Era ambiguamente boa e má. Seu sorriso era a calefação do meu coração, mas também suas palavras pedindo para me afastar petrificavam-no dentro do peito. Será que não enxergava que a minha energia agora era estar perto dela?_No início... _ ela sussurrou baixinho, com o queixo apoiado no ombro inclinado para mim, olhou o banco de cimento e depois levantou as pálpebras fixando suas pupilas brilhantes em cheio em mim. _ O seu silêncio me angustiava. Depois... _ sorriu, aflita por contar um segredo bobo. _... Eu me acostumei. Agora que você voltou a falar, eu ora esqueço, ora lembro e fico angustiada. _ riu. _ Diz qualquer coisa que esteja pensando._Eu queria desenhar seu olho. _ disse._Ãnh? _ riu alto e o som daquele riso soou como um canto alegre dos pássaros. _ Eu vou te achar um maníaco... Que fixação é essa com o meu rosto? Vou te proibir me desenhar enquanto me olha._Não precisa, está aqui. _ apontei para mim cabeça e ela seguiu o movimento do meu indicador, fechando o sorriso. _ Eu desenho para lembrar de onde a conheço. _Acha que podemos nos conhecer antes do seu acidente? De onde?_Talvez eu nunca lembre _ em qual vida nos cruzamos no passado?_ mas... eu não vou esquecer mais._Você cuidou da sua cabeça tão bem quanto da sua perna?! _ apoiou as duas mãos atrás do corpo, esticou as pernas e começou a girar o pescoço se alongando._Só esqueci de uma parte._Qual? _ fechou os olhos e ficou com o rosto virado para o sol franco e amarelado da tarde que caia.Não respondi, apegado em prestar atenção nas fagulhas de luz atravessando os fios lisos e grossos do seu cabelo negro dando tons de chocolate como se pudesse queimá-los. Os seios levantaram-se tudo que puderam, enchendo-se como balões e depois recolhendo-se para dentro da cavidade do ângulo formado pelos seus dois ombros. Eu fora tímido nos últimos traços, não precisava ser tão modesto com seu colo, poderia delinear o volume que merecia. Era o mais perto que podia tocá-los._Te fiz uma pergunta... _ lembrou-me, virando o rosto em minha direção com o sol fazendo curvas douradas nas ondas do perfil da sua face como uma áurea. Como ainda podia me torturar com perguntas se eu só tinha olhos, ouvidos e corpo para admirar. _ Esquece... _ desistiu, sendo piedosa com minha fraqueza._Andy... _ chamei-a pelo nome levando a língua ao céu da boca e depois semicerrando os dentes para pronunciar, como se ela pudesse ser provada e depois o desejo por mais fizesse o animal feroz ranger os dentes afiados. Assim era toda voz que se dizia o seu apelido de duas sílabas. _Hum... _ fechou e abriu as pálpebras mais lentamente ou seria só o modo como meu cérebro processava as imagens em slow motion para captar todos os frames com mais emoção? A inclinação da sua cabeça quase pendendo para trás, mas encostada sobre seu ombro me deixava as mãos no ponto de ampará-la. Se começasse o gesto a tomaria para mim e não tinha permissão para isso, que as enfiasse nos bolsos e apertasse o jeans com as unhas._Como você está? _ perguntei.Ela deu uma gargalhada e eu me encolhi, o que tinha dito de errado? Entoara demais a voz grave? Precisa controlar a ronquidão, isso podia assustar as pessoas._Parece que está falando ao telefone! _ zombou._Desculpe, eu só queria saber..._Olha! _ mostrou as palmas das mãos como um gesto para que eu ficasse calado. _ Vamos brincar disso? _ abriu as pernas e colocou cada uma de um lado do banco de cimento retangular, ficando de costas para mim. _Acha que consegue? _ perguntou e eu só queria saber o que aquele anjo pretendia fazer comigo. Com ajuda das mãos ajustei meu corpo desengonçado na mesma posição oposta. Não gostava de perder a chance de olhar seu rosto, mas agora tinha como provar um toque que valia a mesma experiência. Nossas costas se tocaram e nossas nucas também. Cada um sentia a respiração do outro. Eu faria o que propusesse por aquilo._Podemos falar no telefone agora... _ sua voz saiu risonha, virada para a minha direita._Estou me sentindo uma criança. _ reclamei sem mau humor._Eu pensei que você fosse o palhaço. _ lembrou-me. _Hum, então, como está? _ perguntei._Agora melhor. _ respondeu e deixei que tivesse o tempo que precisasse para prosseguir. _ Eu me sinto vazia, como uma casa em que se mudaram. Mas, eu também sinto que estou livre... E entra luz por todas as janelas... _ falou baixinho. Eu podia apostar que estava de olhos fechados. _Nem todos foram embora sozinhos, alguns eu tive que despejar..._Fala da sua amiga?_ perguntei._... _ girou a nuca e nossas maçãs dos rostos quase se roçaram. _Esqueci que sua irmã foi trabalhar com ela. _ balançou a cabeça para os lados e continuou a olhar para frente. _ Te contou tudo?_Contou._Por isso está aqui? Para me consolar? _ sua voz amargou-se._Não. Vim por outra pessoa._Se veio trazer o recado da Priscila... _ irritou-se e ficou de frente, fiz o mesmo, movendo meu corpo no próprio eixo para encará-la. _ Eu não quero nem saber..._Não, também não. _ puxei minha perna para sentar novamente na posição inicial de frente. _ Talvez seja melhor falar isso outro dia._Do que quer falar? Acha que não estou preparada para falar? _ desafiou com o rosto bem perto do meu._Acalme-se, estou em missão de paz, Andy._Desculpe. _bufou, irritada com a perda do próprio autocontrole._Andy, eu preciso lhe dizer algumas coisas, mas queria que me ouvisse...Ela sorriu e disse que era uma ironia eu lhe pedir isso. Quando iria se acostumar que eu falava? Será que me passava como uma pessoa tão calada, ao mesmo tempo que minha cabeça parecia travar dezenas de diálogos simultâneos comigo mesmo?_O seu marido não está bem... _ disse devagar, medindo suas primeiras reações, ela se segurou firme apenas deixando o sorriso morrer. _ Ele veio pedir ajuda._Agora precisa? Espero que pague por todos os seus pecados... _ condenou-o, sem querer saber como eu tinha ciência disso. Eu acabava de lhe dar uma informação do outro lado e tudo que comentava era seu desejo por ele sofrer? Andy sempre me surpreendia. _Não diga isso! Pode ser pior para todos._O que sabe sobre ser pior? Pior que isso?! Que a minha vida?! _ explodiu, sufocando-se com um soluço que não saiu da garganta. Parece que seu discurso sobre lidar bem com tudo não contivera toda a verdade._Você ainda está viva e pode mudar as coisas... _ falei baixinho com a voz mais doce e menos grave que encontrei para que se acalmasse. Ela entre abriu os lábios e respirou, pois o nariz vermelho já devia estar congestionado. _Mas, o seu marido tem a eternidade para aprender a lidar com o fato de que não consegue mudar o que lhe aconteceu. Está vagando por aí, angustiado, triste, impaciente, transtornado, pode estar agora aqui querendo falar com você..._Foi ele que procurou isso! _Você também o traiu! _ acusei-a._Ele a engravidou..._Mas, você também quis outro homem. _ tentei não tornar as palavras mais duras, era difícil encarar-me como só um personagem daquela história._Eu não fui tão longe... _ balançou a cabeça para os lados em negação._Eu não estou te cobrando... _ toquei pela primeira vez o seu braço. _ Mas, ele está se cobrando e muito. Você e Priscila lembram-no com raiva e ressentimento. Chamam a todo tempo seu nome. Assim, ele não se convence que não pode atravessar a barreira que separam vocês e, com isso, fica por perto, entrando no campo das duas. Isso só te faz ficar mais fraca. Ele está sugando toda a sua energia sem que se dê conta!_Como sabe de tudo isso? _ perguntou-me com medo.Sorri-lhe em alívio por perceber que cedia aos poucos._Um dia falaremos disso... O que sei é que ele apareceu para uma pessoa que conheço pedindo ajuda. Eu sei que não quer mais nenhuma ligação depois do mal que lhe provocou. Então, não pense mais nele, não mova nenhum pensamento que o chame. Provavelmente, os anjos devem estar tentando colocá-lo para dormir a fim de não escutar-nos. Mas, há horas que ele acorda e nos ouve. Dessa maneira, não irá se curar nunca das feridas._Fala como se estivesse em um hospital vivo._Ele está vivo e em um hospital, mas não da maneira que é estar vivo aqui, nem como imagina um hospital. Mas, a associação é bem perto disso. Andy, você também precisa afastá-lo._Eu já estou fazendo isso. Me mudei do meu apartamento e levei somente as minhas coisas. Senti-me muito mais leve depois disso. Eu queria poder deitar em uma cama de um hospital como fala e dormir por muito tempo... _ suas lágrimas caíram e eu amparei seu rosto com as minhas duas mãos levantando-o para mim._Não diga isso... _ franzi a testa. _ Você ainda pode mudar o rumo da sua história! Não quero dizer que é melhor estar do lado de cá. Um dia vai morar em um lugar sem dor, sem fome, sem ansiedades, sem conflitos, iluminado e pacífico. Mas, só poderá desfrutar quando todos aqui mostrarem que podem lidar com a sua partida. Não será feliz ouvindo os gemidos dos que estavam ligados a você. É isso que o Marcelo está passando agora. Era Marcelo seu nome, não? O “M” que carregava no pescoço. Então, Andy, ainda está viva e pode ter um pouco da felicidade nesse mundo. Precisa selecioná-la no cesto de verdades falsas, de mentiras, ódio e raiva. As pessoas têm a felicidade, mas preferem escolher outros sentimentos._Se é tão sábio, por que parecia tão triste quando sobreviveu? _ pôs-me em provação._Porque eu não sabia como ficar aqui com metade de mim. Agora eu sei._O que sabe?_Que vale, porque posso tocar... _ segurei seu rosto e com o indicador rocei a maçã rosada do seu rosto. _ ... e sentir... _ respirei o cheiro do seu cabelo, roçando-o com meu nariz. _ E eu ainda não estou preparado para me desapegar disso.Andy reclinou a cabeça para baixo e tocou meu peito com as duas mãos, afastando-me delicadamente para que pudesse ficar de pé, anunciando sua partida._Obrigada... Obrigada... Já está escuro. Tem como ir embora? Quero dizer, como costuma voltar?_De ônibus. _ respondi e me pus de pé, pegando a mochila._Posso te levar em casa, em agradecimento? _ encolheu os ombros._Não prec..._Por favor, eu ainda não me desculpei por hoj...Toquei com o polegar os seus lábios para que parasse de falar._Já se desculpou, não fique remoendo seus sentimentos. Deixe sua aurea limpa, fica tão mais bonita assim... _ olhei-a ao redor._Você fala coisas estranhas..._Hum... Você ser bonita é estranho? _ri.
Cap 75: Caminhando juntos (Felipe e Andy)
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No começo meus pais me apoiaram sem questionamentos a iniciativa de fazer trabalho voluntário na clínica. Qualquer coisa que me tirasse de casa e me fizesse voltar com um sorriso era válido para eles. Mas, quando cheguei com a nova notícia, eles estranharam. Depois de tentar voltar ao meu emprego no jornal sem sucesso, pois a minha vaga já havia sido preenchida, eu decidi dar um rumo novo na minha vida. Aliás, a vida já se encarregara de mudar minha rota, eu apenas estava me acostumando com o novo trajeto. Na clínica, aqueles que já estavam praticamente recuperados podiam freqüentar aulas de natação na grande piscina que havia lá. Uma vez superadas as deficiências dentro da água, era encaminhados a um clube próximo, onde havia equipes de pessoas como nós. Havia algumas crianças muito desmotivadas que tinham um processo mais lento de recuperação. Sugeri a coordenadora da clínica que a brincadeira do Médico da Alegria tivesse intervenção também na piscina. Assim, incentivaríamos as outras crianças a quererem participar. Ela achou ótima a idéia, porém, me advertiu que, se desse muito certo, precisaria que eu fosse mais qualificado para estar à frente das aulas. Foi por causa disso que tomei uma nova decisão:_Eu vou começar a fazer faculdade de educação física. _ anunciei no jantar. Senti que, quando trocaram os olhares, estavam telepaticamente se questionando se eu não sofreria ainda mais com a falta de uma mobilidade natural durante um curso que me exigiria certas habilidades físicas. Antecipei-me a garantir que gostaria de aprender para trabalhar nesse campo específico com foco nos portadores de necessidades especiais. Perceberam que eu falava a sério e não se intrometeram. Minha irmã Tamires mais tarde sentou-se na minha cama e apoiou a cabeça na mão. Sabia que viera debater o assunto._Gostei da sua idéia. Mas, ela tem a ver com a sua fisioterapeuta? _ perguntou._Não sou mais seu paciente. _ respondi rabiscando um desenho no caderno, sentado na poltrona do canto do quarto._Hum... E por que a está desenhando?Levantei os olhos do caderno._Foi só um chute, você tem essas fixações. Poderia fazer uma série para cada mostra de auto-retrato das suas namoradas._Vou pensar nisso. _ continuei rabiscando com o lápis._Gosta dela?_Gosto. _ respondi sem entusiasmo, esfregando o dedo para esfumaçar um traço._Muito quanto?_O que está pegando, Tamires? _ encarei-a._Há algumas coisas que, se gosta muito dela, vai precisar saber para ajudá-la._Do que está falando? _perguntei, curioso. Queria saber tudo que fosse possível para ficar mais perto de Andy._Você sabe até onde de tudo que aconteceu com ela? _ perguntou._Não falamos do assunto. Só o que foi noticiado. Imagino que deva ter mais pela sua cara..._Tem. _ fez um rosto tão grave que eu larguei o caderno de lado e me inclinei para frente da poltrona, a fim de dar-lhe toda a atenção e não perder nenhum detalhe. _ Eu comecei a trabalhar com a melhor amiga da Priscila. Quero dizer, ex-melhor amiga._Sim, aquela advogada. Que tem?_Ela tinha um relacionamento secreto com o marido da Andy. E... não foi só isso, está grávida._Andy sabe de tudo?Minha irmã balançou a cabeça afirmativamente. Eu estava chocado, isso explicava o estado de animo sempre apático de Andy, ela parecia ter levado uma pancada forte na cabeça, se esquecia de nomes, horários, rotinas. Uma dispersão estranha a seu estilo sempre responsável. _E não pára por aí. Agora vem a parte que envolve nós dois. _ apontou para mim e depois para o próprio peito. _ As duas estão fazendo uma verdadeira bagunça cósmica e eu estou servindo de mediadora. Não tenho mais paz.Franzi a testa._O Marcelo, o falecido marido de Andy, não consegue descansar, as duas chamam por ele o tempo todo e não diminuem com isso seu sofrem. Já me pediu auxílio, mas eu não tenho como amparar os dois lados. Vou precisar de você._Claro. _ respondi, absorto, já tentando imaginar uma maneira de me aproximar de Andy para tocar nesse assunto. Rapidamente concluí que seria uma tarefa bastante difícil. Não havia esse grau de intimidade. Se bem que, ganhar intimidade era justamente meu propósito. _ Não sei quanto tempo vou precisar, mas tentarei. _Obrigada. Eu acho que nós dois fomos atraídos para as polaridades opostas da situação como almas intercessoras. _Entendo... _ pensei na cadeia de circunstâncias que entrelaçaram nossas histórias, começando pelo acidente que levara minhas pernas, mas me trouxera Andy. _ Eu sinto que, quando estou com ela parece que já a conheço, como se tivesse sido um grande amigo, um irmão... não sei dizer._Às vezes, você não foi um dia uma pessoa boa para Andy em outra vida e é o momento de ajudar para evoluir. No fundo, ela deve ter um pressentimento inexplicável disso também. (...)Já havia saído do meu apartamento e alugado uma pequena casa no subúrbio com jardim e uma garagem. Era bem modesta, mas espaçosa e localizada em uma vila de casas iguais a ela, onde pessoas sentavam no portão no fim da tarde para verem as crianças brincar. O bairro era um pouco afastado do trabalho, mas era arborizado, simpático e bem cuidado. Eu estava começando a me sentir melhor, com uma sensação de vida nova. Hoje, no trabalho, estive mais atenta e empenhada. Tudo ia bem, só por um detalhe, eu começava a ficar irritado com meu antigo paciente Felipe, que virara o centro de tudo na Clínica. Todos gostavam da maneira cativante como brincava com as crianças vestido de palhaço. As mães o abraçavam, agradeciam e lhe enchiam de presentes. A coordenadora da equipe médica já o indicara para algumas entrevistas em jornais e revistas especializados no tratamento de deficientes. Eu tinha que reconhecer que estava com muito ciúme do seu destaque. Ele era só um paciente que não andava e me devia a ajuda por alguns conselhos. Agora era livre e independente de mim. Pegara algumas das minhas advertências contra seu pessimismo e transformara em uma revolução de coragem e ânimo que pulverizava em todos que passava. Ainda era bastante calado, mas não precisava de muitas palavras, sabia se expressão com os gestos e caretas em uma sintonia perfeita com as crianças.Acima de tudo ficara irritante, mas muito irritantemente bonito. A pele desbotada pelo abatimento dera lugar a um bronzeado brilhante e bonito. Os braços se tornaram fortes, cortou o cabelo, começou a se vestir melhor e ficou de pé. Tê-lo a minha altura, se movendo como eu, o tirava do posto de paciente para o de um colega de trabalho.Quando passava por mim eu tinha vontade de olhá-lo. Começava a me punir por isso. Não iria ficar com mais ninguém quem dirá com um rapaz cinco anos mais novo. A cada vez que ele produzia em mim uma necessidade de estar próxima, mais eu me sentia uma fraca. _Já viu o novo professor de natação? _ uma colega apontou para a piscina e me pegou pelo braço para ver. _Uau, só pelas costas já aprovei. _ ri baixinho e chegamos próximas a borda da piscina onde um homem usando calça azul larga e uma camiseta branca colada escrita “Educação Física” apitava._Oi. _ ela o cumprimentou para chamar a atenção.Engoli em seco._Vamos lá, Rodrigo. Levanta a cabeça para respirar! _ Felipe gritou e depois virou-se para nós duas. _ Oi. _ sorriu e senti minha colega apertar o meu braço que segurava._Shiii, meu paciente chegou ali, já vou. _ soltou-se de mim e me deixou sozinha._Não sabia que podia dar aulas de...Felipe sorriu abertamente de uma maneira quase punível. Como podia ser tão bonito?!_Eu não sabia que podia fazer muitas coisas e, por não saber, fui lá e fiz. _ riu. _ Não gostou? _ percebeu que eu tinha esquecido de rir._Que legal. _ levantei as sobrancelhas._Você não acha que deveria se desligar um pouco daqui e procurar voltar para a sua vida normal? Felipe não respondeu e seu sorriso diminuiu. De repente, repassei mentalmente o que acabara de dizer e percebi o quanto tinha sido grosseira e mesquinha. Meu rosto começou a esquentar de vergonha e arrependimento._Mais duas voltas, campeão! _ Felipe animou com palmas o garoto que acabava de chegar a borda próxima aos nossos pés. Depois, voltou-se para mim. _ Por que você também não vai embora depois que ajuda algumas pessoas?_É o meu trabalho._Agora também é o meu. _ respondeu friamente. _E, desculpe se não posso mais voltar para a minha vida normal. _ disse ironicamente e ferido.Eu queria dizer um milhão de coisas para reverter a situação, mas nada ajudaria._Felipe, eu..._Que moleza, pessoal, vamos, vamos! _ apitou longamente até irritar meus ouvidos propositalmente para me afastar.Virei as costas e sai me sentindo péssima, um monstro. Esperei que ele acabasse sua aula para ter uma oportunidade de dizer o quanto eu não queria ter dito aquilo. Encontrei-o na lanchonete da clínica, debruçado sobre o balcão, conversando baixinho com a funcionária. Ela tinha um olhar de adoração e soltava suspiros. Revirei os olhos e pedi um pedaço de bolo da vitrine a fim de cortar o papinho dos dois. Senti o olhar de Felipe sobre mim, mas me mantive firme._Posso conversar com você? _ perguntei, enfiando o garfo com força na fatia.Procurei a mesa mais distante e próxima a uma janela. Ele me seguiu mais atrás, ao puxar a cadeira, seu caderno velho cheio de orelhas caiu do seu braço e parou no meu pé. Inclinei-me para pegar e o vi aberto. Fui mais rápida e o puxei da mão de Felipe. Folheei. Havia vários desenhos do meu rosto em diferentes ângulos. Levantei os olhos com o coração embevecido. Ele estava arranhando o tampo da mesa absorto. Delicadamente tomou de volta e tirou o lápis enfiado no fino espiral. Sem qualquer explicação por ter me tomado como objeto de reprodução artística, voltou a rabiscar.Mordi meu pedaço de bolo e tentei processar melhor meus sentimentos antes de falar. Sorri, eu parecia ter comido algum ingrediente de felicidade no bolo, sentia-me alegre._Minha irmã disse que eu devia montar uma exposição. _ ele riu, como que conversando consigo em voz alta, balançou a cabeça para os lados._Felipe, desculpe pelo que eu disse aquela hora. _ disse-lhe. Ele encolheu os ombros e continuou rabiscando. Só havia entre nós o barulho metálico do garfo no prato e do seu lápis arranhando a folha de papel._Eu fui estúpida. Eu achei por um momento que seria melhor você se afastar daqui e retomar o que fazia antes..._Eu estou bem. _ ele me cortou._É, eu sei. Está muito bem mesmo. E consegue transmitir isso para todo mundo. O trabalho que está fazendo é incrível. Não há uma só pessoa que não vem falar de você para mim._Menos você. _ olhou-me em cheio e senti o bolo parar na garganta, engoli com força._Ãnh?_Sempre me evita, parece resistir._Eu? _ ri, atingida. Franzi a testa, balancei levemente a cabeça para os lados, olhando para baixo, remexendo na cobertura do bolo. _ Nada a ver...Felipe colocou os braços sobre a mesa e se inclinou completamente para frente, trazendo para perto seu cheiro bom de desodorante e xampu. _Então, eu quero cobrar a atenção que me renegou._Como?_ levantei a sobrancelha._Hoje, quando acabar de atender seus pacientes, vamos dar uma volta. _ sentenciou e se levantou para não dar tempo de eu processar o que acabara de dizer.Senti medo e ansiedade pelo convite. Devorei com facilidade o resto do bolo e rapidamente passei na cabeça quantos pacientes faltavam. Voltei ao trabalho e, no final, já estava apressada para terminar. Vi-o apoiado em uma pilastra com um dos ombros, a mochila transpassada no peito e o cabelo molhado. Meu coração começou a acelerar como se me preparasse para uma maratona e meu corpo disparou adrenalina pelas veias como se eu fosse correr um grande risco. Retirei o jaleco branco e me olhei no espelho do banheiro. Desabotoei o primeiro botão da blusa branca. Não! Envergonhei-me por isso. Abotei novamente. Puxei os grampos e soltei o coque. O cabelo caiu sobre os ombros com um formato ondulado. Passei um gloss rosa claro e olhei-me de costas. Pus a bolsa no ombro e abri a porta. Felipe estava conversando com a mãe de um de seus mais novos alunos. Trocamos um olhar apenas, continuei andando em direção a porta de saída. Logo depois, senti seus passos atrás de mim, sorrir. Estávamos no jardim externo, frente a frente.Seus olhos intensos me contemplavam. Será que depois me transformaria em mais um desenho da próxima folha do seu caderno? Lembrei do nosso beijo naquele dia em que eu estava completamente louca e isso subiu a temperatura do meu corpo. Afastei a lembrança para não enrubescer._Qual é a idéia agora? _ perguntei._Tem uma praça aqui cheia de árvores e bancos. Podemos... _encolheu os ombros. _Caminhar. Que ironia meu convite! _ riu alto._Que ótimo ouvir isso, vamos... _ sorri.
Cap 74: Uma mulher na zona de sombra (Andy e Felipe)
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Como se volta para casa se não há quem te espere, nem casa pra voltar? Descubro que só tenho ao meu corpo. Logo meus bens seriam confiscados e dados a Priscila e seu filho. Eu estava tão abalada que tinha medo do que a solidão produziria em mim. Se me esquecesse no sofá, poderia nunca mais achar coragem para levantar. A viagem de férias me afastara fisicamente do lugar onde aconteceram os fatos, mas não dos fatos em si, todos eles estavam vivos e presentes na minha cabeça, bastava o efeito dos calmantes passarem para emergirem como bolhas de ar subindo para a superfície.Entreguei-me ao trabalho depois de um mês afastada. Eu já perdera as ambições, mas meus pacientes precisavam de minhas mãos e dos conhecimentos ainda guardados na minha mente. Eu não sentia que tinha motivos para viver, porém, eles precisavam ser ajudados e isso me dava um rumo. Na manhã que retornei a Clínica, fazia um sol claro e esbranquiçado, raiando pelas árvores molhadas de chuva. Ele se mostrava para mim como exemplo de que é possível surgir luz após a tempestade. Não consegui sorrir nem pela imagem bonita da manhã. Meu corpo movia-se em linha reta maquinalmente para a porta de vidro da entrada da Clínica. Abri-a com meu jaleco pendendo no braço direito. Assinei minha presença na ficha da recepção. Devolvi o livro e percebi que era observada com olhos arregalados pelas funcionárias. Todos deviam saber da minha vida como a novela das 8 que publica o resumo semanalmente no jornal. Deixei-as com a pena que sentiam de mim para trás e segui rumo a minha sala. Guardei a bolsa e vesti o jaleco. Procurei meu crachá na gaveta e encontrei um rosto desenhado, olhando para mim, como um reflexo. “Até”, estava escrito abaixo do auto-retrato que Felipe desenhara para mim. Pressionei um lábio contra o outro, como pude beijá-lo? Isso teria arriscado meu emprego! Logo o que tanto precisava agora! Bati a gaveta de volta. Não, eu nunca mais o olharia daquela maneira. Respirei fundo diante do salão cheio de crianças se exercitando. Conferi a pasta com os prontuários. Sabia fazer aquilo, bastava desligar minha mente e usar apenas o raciocínio médico estritamente técnico. O primeiro paciente do dia foi uma menina de dez anos acompanhada da mãe, que empurrava sua cadeira. A garotinha estava emburrada, sem qualquer vontade de começar a fazer mudanças. Um quadro com o qual já estava muito acostumada. Bateu um medo de eu também não ter nada a lhe oferecer psicologicamente. Era um vaso vazio. Sua mãe encarou-me esperançosa e isso piorou bastante meu pânico.Aquele horário estava especialmente reservado para crianças. A clínica era conceituada pelo seu alto padrão de atendimento com piscinas de grande porte, equipamentos de ponta importados, profissionais renomados e um ambiente de verdadeira recuperação. Oferecíamos cursos artísticos, palestras sobre os direitos dos portadores de deficiências, oficinas e encaminhamento para unidades para-esportivas. Eu me orgulhava de fazer parte daquele plano maior de desenvolvimento humano. Isso valia mais do que os prêmios e troféus que acumulávamos nas prateleiras. Senti vontade repentina de empreender um projeto de pós-graduação e defender esse tema através de uma pesquisa formal. De repente, me dei conta que havia tempo e liberdade para tudo que desejasse agora. Por hora, eu tinha uma paciente emburrada e uma mãe ansiosa me olhando. Quando abri a boca para falar-lhe, seus olhos se arregalaram e as covinhas ficaram fundas com o sorriso que começava a abrir até que deu uma gargalhada. Sua mãe também ria. Franzi a testa e ergui meu tronco inclinado sobre a menina. Quando olhei para trás, tomei um grande susto. Um homem vestido de palhaço, com o rosto pintado de branco, uma bola vermelha no nariz, sapatos de bobo da corte e uma flor no jaleco me imitava. Pus a mão no peito para respirar e ele fez o mesmo. Eu não estava sabendo dessa novidade na clínica. Contrataram um “médico da alegria”? Eu procurei uma colega com os olhos e balancei a cabeça em pedido de explicação. Ele percebeu e correu até ela. Gesticulou como quem quer saber de algo e depois apontou para si mesmo, achando a própria resposta e fez uma grande expressão de espanto. Marchando feito um soldado afetado, chegou até mim e estendeu a mão para apertá-la. Eu aceitei, mas ele apertou meu nariz. A garotinha riu alto ao meu lado.O palhaço foi até o canto oposto, pegou o peso que um menino usava para fazer a série e fingiu que caíra bruscamente de sua mão como se fossem toneladas. Agachado, como fazem os levantadores de peso profissionais, tentou erguer os halteres. O palhaço fez uma cara de que algo ocorreu com sua calça. Virou o rosto para trás e a gargalhada foi geral. Levantou o jaleco e lá estava o rasgo mostrando a sunga de bolinhas vermelhas. Toda a sala estava hipnotizada com seu pequeno espetáculo. Sempre admirei o humor do cinema mudo, quem conseguia com trejeitos e caretas montar personagens e cenas era o artista verdadeiro!Agora, minha paciente estava disposta a tudo e eu nem precisara fazer esforço. Aquele anjo bom enviado por Deus conseguira arrancar o sorriso da pessoa mais triste de todas ali, eu. Quando isso aconteceu ele me ofereceu a flor do seu bolso. Peguei-a e um jato de água espirrou no meu rosto. Então, ele puxou um lenço gigante que nunca parava de sair. Ri ruidosamente e senti os olhos cintilarem, eu estava sensível demais. Mostrei a minha paciente como deveria fazer sua primeira série e corri para a sala. Precisava beber uma água e me equilibrar. Engoli sem vontade, mais para obter um efeito psicológico calmante e me apoiei contra a mesa, fitando o chão. A porta se abriu e o palhaço entrou._Oi. _ virei-me de costas para que não visse meu rosto. Joguei o copo fora e comecei a lavar minhas mãos. Engoli em seco para desentupir minha garganta do grande nó de choro. _ Parabéns pelo trabalho que fez! Essa clínica inventa todo dia uma coisa nova. Qual o seu nome? _ olhei para trás rapidamente para mostrar naturalidade e vi que ele não se desarmara do personagem. _ Hei, o que está aprontando? _ perguntei, secando a mão no papel. Atirei-o no lixo.O palhaço veio até mim com um medidor de pressão. Com um ar categórico, puxou uma cadeira e me fez sentar. Senti-me ridícula, mas disposta a participar da brincadeira. Argumentei que precisava voltar e ele fez que não com a mão enluvada de branco. Colocou a faixa no meu braço e encostou o medidor redondo metálico na minha testa._Acho que não é aí! _ fiz uma careta e ri. Ele bateu na cabeça e revirou os olhos para me mostrar que devia ter lembrado desse detalhe. Depois, pousou-o no meu peito, em cima do meu coração. _ Vou te ajudar, você coloca no pulso...Ele não tirou o aparelho do meu coração. Inclinado com o rosto bem próximo do meu, senti que estava hipnotizada. Deve ter escutado o quanto meu coração disparava. Então, deslizou o dedo indicador enluvado nas maçãs do meu rosto, parecendo recolher uma lágrima imaginária. Inclinou a cabeça para o lado com semblante de questionamento. Puxei bruscamente a faixa do meu braço e retirei sua mão do meu coração. Levantei, abrindo passagem com meu corpo. Tossi duas vezes, havia sido extremamente grosseira e bruta. Peguei um copo plástico e novamente o enchi de água. Não estava mais com sede, mas tinha que dissimular naturalidade. Virei e o vi me olhando seriamente, sem expressões de palhaço._Preciso voltar a trabalhar, não vai me dizer seu nome? _ perguntei, forçando na cordialidade.Não respondeu. Seus olhos, seu silêncio... O copo cheio de água caiu da minha mão.Ele sorriu.(***)A primeira vez que vi Andy, assim que nos conhecemos na minha primeira consulta, ela estava do outro lado do vidro da sala, brincando com uma menina em cima do tatame. Quando fomos apresentados, eu já sentira logo um descompasso ao me deparar com aquele rosto bonito, seus olhos negros e os cabelos compridos sobre os ombros. Andy me ajudara a querer andar novamente, respeitara meu tempo e entendera como ninguém meus sentimentos. O resultado disso foi que, com muito trabalho e vontade, dominei novamente o movimento nas minhas coxas e me adaptei bem as próteses. Porém, não eram só minhas pernas que ganharam vida, meu coração também se sentiu grato por pulsar outra vez. No dia em que nos beijamos, eu voltara a ter vontade de falar e lhe disse o quanto a achava linda. Porém, Andy não estava nada lúcida e provavelmente se esquecera. Depois do beijo, em que eu pensava ser o começo de algo, ela desaparecera. Procurei arrancar informações das outras médicas da clínica, mas tentaram manter reserva absoluta. Eu não podia explicar que era mais que apenas paciente. Os jornais, no entanto, logo me deram todas as respostas. O seu marido havia sido encontrado morto por overdose em um motel medíocre. A fiseoterapeuta da alta sociedade que trabalhava por amor e por auto-reconhecimento agora precisava se esconder de todos. Eu tinha certeza de que um dia ela encontraria forças e eu queria estar lá para revê-la. Pensei em uma maneira de não me afastar da clínica. Foi quando ouvi uma das médicas comentarem sobre um trabalho de voluntários que se vestiam de palhaços para motivarem os pacientes. Ofereci-me a aprender e implementar na clínica. Ninguém entendeu minhas motivações, mas concordaram que seria bem inovador tentar. Dessa maneira, eu teria uma desculpa perfeita para ficar por mais tempo no lugar para onde Andy regressaria, eu só não sabia quando.Não foi nenhum esforço ajudar aquelas crianças a sentirem novamente vontade de sorrir, era um meio de eu me lembrar que ainda estava vivo e tinha a chance de fazer o bem. A espera por Andy se tornava cada vez mais produtiva até que já me esquecia de perguntar sobre ela insistentemente. Foi em uma manhã chuvosa que escutei na recepção o comentário de que ela voltara ao trabalho. Meu coração acelerou e eu fiquei nervoso enquanto me produzia no banheiro. Será que me reconheceria por trás da maquiagem, peruca vermelha e chapéu?Pensei que me sentiria feliz, mas quando vi o rosto de Andy na sala, enquanto tentava arrancar-lhe algum sorriso com a brincadeira do medidor de pressão, senti uma profunda tristeza. Seu coração passava pela minha mão uma energia depressiva, como se me usasse como um fio condutor. Ela se afugentou. Porém, ainda não havia me reconhecido. Nunca esperaria que eu me recuperasse tão bem e me tornar um palhaço voluntário na sua ausência.Depois da morte do marido nas circunstâncias dramáticas, não havia mais luz, nem sorriso, era perfeitamente uma mulher na zona de sombra. No seu dedo já não tinha a grossa aliança que tantas vezes me lembrou de que eu não podia me aproximar dela. No seu pescoço não pendia a grossa letra “M” de ouro. Estava magra, extremamente branca e frágil. Espantado com o que fizeram com a mulher, esqueci de sorrir também. Foi neste momento que Andy reconheceu meu rosto e deixou o copo cair no chão. Sua mão segurou a cadeira ao seu lado e ela se sentou. Uma médica abriu a porta e nos olhou. Veio avisar sobre a paciente que Andy deixara lá fora. Fiz um sinal discreto de que não ia ser possível para Andy. Ela entendeu e respondeu que poderia cuidar disso. Deixou-nos sozinhos outra vez.Andy olhava fixamente para a poça no chão, parecia não nos ouvir. Puxei outra cadeira e me sentei ao seu lado em silêncio. Ela tinha as palmas das mãos voltadas para cima sobre os joelhos, em uma postura de fraqueza e recolhimento. Uma lágrima caiu de seus olhos e a apanhei com o indicador na maça do seu rosto. Andy segurou-a e fechou as pálpebras por alguns instantes. Retirei a luva branca aveludada e agarrei sua mão com a minha, deixando-a sentir o aperto quente e macio. O toque a fez levantar os olhos para mim._Eu acho que não sirvo para trabalhar hoje, nem pra ficar aqui... _ esfregou o rosto com as costas da mão livre. _ Vou embora.Eu queria lhe dizer que para mim Andy servia de qualquer maneira, que tinha esperado tantas semanas para revê-la que poderia ficar toda a tarde amparando-a. Mas, respeitei seu desejo e abri passagem. Ela apanhou a bolsa da mesa e a pôs sobre o ombro. Parou por um segundo e me encarou._Eu não sei se... se foi coisa da minha imaginação. _ riu. _... Deixa, agora não tem importância... _ balançou a cabeça para os lados. Fiquei de pé e ela recuou alguns centímetros, temerosa. Olhou para minhas pernas perfeitamente firmes, engoliu em seco. Não estava acostumada com a situação inversa em que ela precisava de amparo. _ Eu... eu tive a impressão de que da última vez você falou...Sorri largamente._... Desculpe, eu estava... meio alta. _ confessou baixinho. _ Mas... ouvi você dizer alguma coisa... Você voltou a falar também?Ri agora me divertindo por saber que tinha alguma lembrança daquele dia. Acho que a envergonhei por isso porque se precipitou rapidamente para sair. Virei o rosto para trás e a vi já de costas._Eu não só falei, ou esqueceu? _ disse com a voz grave, quase rouca.Andy fechou a porta, acho que preferia não lembrar do beijo. Mas, eu não desistiria.
Cap 73: Todo seu amor (Kali)
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Caminhamos em direção ao rio de mãos dadas, sem pressa, respirando o ar úmido e fresco de terra. Rebeca estava radiante, tagarela, risonha. Parecia ter se escondido por muito tempo dentro da casca. Deitada em minha perna, já acomodados sobre a manta estendida no gramado, ela me confessou que, na verdade, evitava ser mais extrovertida comigo com receio de sem querer demonstrar que gostava de mim. Afinal, era minha chefe e havia todos os protocolos. _Além disso... _ pensou se deveria explicar-se. _ ...Eu não achei que pudesse chamar sua atenção. Mas, confesso que não imaginava que estaria tão feliz como agora, aqui, tão perto de você. Posso sentir o seu coração, as suas mãos, o seu calor... _ sentou-se e acariciou o meu rosto em devoção. _ Não sei o que tem em você que me faz sentir emocionada._Ótimo, eu te faço chorar?! _ zombei._Não, me faz sentir com mais força tudo. Como seu eu visse os tons em rosa choque. Desculpe, devo realmente estar te assustando. Não quero que se sinta cobrado a corresponder. Eu sei que tem uma namorada no seu país e uma hora vai voltar para ela... _ abaixou a cabeça e perdi um pouco a sua voz, que se abafou. _ Eu senti muito quando partiu. Irritei-me facilmente com a secretária que me arrumaram e mandei que ela não tocasse em sua mesa. É ridículo, mas eu queria ver sua mesa todo dia como deixou para ter a impressão de que a qualquer momento entraria com o café na mão._Eu senti que devia voltar. Não sei explicar por quê. Eu estava bem no Brasil e, até tinha começado a gostar da moça a que se referiu, mas eu queria loucamente estar de volta para o espaço que conquistei._Eu não posso ter o prazer de saber que voltou por mim, mas estar aqui de novo já considero como um ganho muito grande. Aliás, um empréstimo, afinal, não será para sempre. _Como não sou de ninguém, isso pode ter seu lado positivo. _Mas e o seu coração? Ele pertence a alguém? _ quis saber._Não posso te responder. Várias pessoas podem pegar nosso coração e amá-lo. Mas, só iremos querer que uma o ame verdadeiramente._Está me dizendo que ama por alguém te amar? _ franziu a testa._Acho que é ambos os lados devem despertar o mesmo sentimento de gostar de ser amado. Pode parecer narcisismo, mas é preciso admirar quem nos ama._Você me admira? _ perguntou, inesperadamente._Por algumas coisas sim, por outras não. Você se portou incrivelmente doce esses dias, mas é capaz de ser amarga, fria e impiedosa. Essa face é a que mais conheço._Eu não queria ser assim. Mas, aos poucos descobri que fui crescendo com essa metodologia e não quis mudar para não perder o ritmo... Só que ao ver que isso não me fazia conquistar você eu ficava triste e ainda mais má... Nossa, eu sou um ser humano horrível. _ deixou-se cair de costas na manta, dramaticamente. _Não é o que eu vejo. _ acariciei-lhe os cabelos. _ Mas, será difícil admirar uma pessoa todos os dias quando o resto do mundo não sente o mesmo. Acho que sabe o que quero dizer. Quantas vezes viu os funcionários da empresa virem a minha mesa, brincarem, me convidarem para as festas e finais de semana? Você não admirava a devoção que tinham a mim, um cara sempre palhaço, extrovertido e tranqüilo? Então, eu também vou acabar te vendo pelo olhar das pessoas. _Kali. _ interrompeu-me com uma voz séria e solene. _ Eu sou capaz de mudar para ser isso que espera. _Não precisa ser tão bruscamente, eu só falei... _ comecei a rir, seu amor potente me assustava bastante._Ok. Eu vou te mostrar. _ profetizou e buscou a cesta de comida. _ deitei sobre sua perna, como me pediu, depois de comermos. Ela fez carinho na minha cabeça, rosto e braços com muita ternura. _Você é o que quis por tanto tempo, eu te admiro muito, Kali. Todas as noites que fechei a porta do escritório, desejei em pensamento com toda força em te ver na manhã seguinte. Eu te atraí de volta. _ sorriu.Quando voltamos para a cidade, eu temi que Rebeca continuasse a ser fria e calculista como se mostrava antes da viagem. Mas, ela realmente iniciou as mudanças que prometera. Começou a dar “bom dia” e a aprender o nome dos funcionários menos importantes na hierarquia da empresa. Reservou tempo para reuniões de motivação para equipes que atingiam resultados. Logo começou a ser realmente o assunto de todas as conversas. A conspiração do momento era quem tinha roubado seu coração, pois nada seria forte o suficiente para transformá-la. Mas, a maior prova de todas se deu na manhã que ela me viu conversar com meu irmão sobre o aniversário de Tamires. Rebeca sentou-se em sua mesa e se manteve aparentemente calma como era de se esperar de uma mulher sensata e madura. Desliguei e ainda olhei o aparelho em minha mão por um tempo. Avisei-lhe que teria que tirar uns dias para ir ao Brasil. Ela perguntou burocraticamente se eu já tinha procurado o presente certo._Eu... _ não soube o que lhe responder. Não queria oferecer-lhe isso em troca, depois de tanto amor e trabalho para me conquistar. Ela levantou e pegou uma caixa em cima do armário atrás da mesa._Ganhei de um fornecedor que queria alguns privilégios, não é muito ético, mas... são coisas da profissão. _ deu-me. _ É um bom computador. Ela é jovem, vai gostar. _ sorriu um sorriso que não era seu, parecia comprado em uma loja na sessão “como demonstrar que pode engolir a namorada dele”. Rebeca também era jovem e bonita também, aliás, era poderosa. Ninguém, em seu lugar, se portaria desse modo respeitoso e sem cobranças. Senti-me pior por isso._Aproveita e chega em uma grande caixa com uma fita vermelha. Salta de dentro no meio da festa. Imagina o impacto! _ piscou para mim em uma fina ironia._Pare, não precisa fazer isso..._Tudo bem. _ pegou uma pasta que estava na mesa e sua caneta dourada. _ O vôo fica por nossa conta. _ dirigiu-se para a saída e não pude segurar seu braço para impedir.Esperei que voltasse tarde da noite para buscar sua bolsa. Não sairia sem me despedir._Rebeca, eu..._Tudo bem, não precisa esforça-se para falar. Eu já te vi partir, Kali. E sempre soube que aconteceria de novo. Espero que você também encontre suas certezas... Eu preciso ir. Ah! Eu prefiro que saiba essa notícia por mim, primeiramente. Acho que não podemos ficar na mesma empresa. Sabe que estamos sobre um código de ética que não aceita isso... Eu posso conversar com o RH para transferi-lo de setor. Só que não é o que quero... Acho que tem potencial de uma coisa muito maior. Já fiz alguns telefonemas. As propostas vão chegar e só terá que escolher._Você moveu mundos e fundos para que me afastassem de você?_Não, Kali. _ sorriu, triste por ver que ainda pensava mal dela. Suspirou. _ Eu fiz de tudo para que o mercado reconheça que é bom. Não posso prendê-lo aqui como meu amuleto da sorte, meu amo, meu escravo-amante. Você é mais que isso, é um homem que quer ser reconhecido. E, se eu gosto de você, tenho que ser a primeira a mostrar dessa maneira. Você é como um pássaro que pousou perto de mim, eu posso admirá-lo o quanto for possível, mas uma hora vai voar. _ sua voz embargou ali, respirou. _ Eu vou precisar tirar só a sua mesa da sala, não dá para conviver com ela.Eu não tinha palavras, nem podia me aproximar. A sala de vidro tornava tudo público, exceto nosso diálogo._Eu preciso ir... _ falei baixinho. _Eu sempre soube. _ sorriu e saiu.A viagem para o Brasil fora pouco entusiasmante. Eu fiz tudo como deveria ser feito e o que se esperava de mim. Levei o computador comigo, pesava no meu colo mais que seu volume físico, pois representava a dor de Rebeca em me perder. A festa surpresa estava tão agitada como deveria ser e eu tentei aparentar o mais animado possível. Mas, infelizmente, o disfarce estava me deixando incomodado naquele figurino. Tamires não me pareceu tão interessada quando propus que terminássemos a noite juntos. Disse ter gostado do vídeo que eu tentara fazer no “pacote surpresa” e agradeceu. Sozinho no volante do carro, disquei o número de Rebeca e esperei chamar. Ela atendeu._Como está? _ perguntei._Alguém te contou? _O que eu deveria saber?_Minha avó não está bem. Levei-a para uma clínica. Está se recuperando lentamente. Não vou ao trabalho há dois dias. Ela é mais importante agora... Desculpe, como foi a festa de aniversário da sua namorada? _ perguntou, como por obrigação.O que eu poderia lhe dizer? Que fora uma festa com muita música, comida, uma garota distante de mim e um grande vazio._Logo estou de volta. Já perdi minha mesa?_Recebeu algum retorno dos lugares que te indiquei?_ preferiu mudar de assunto._Sim, nem sei qual escolher. _ri. _Mas, não é isso que importa agora. Eu... quero te ver._Deve ter um vôo a sua espera. _falou docemente._Vou correr para não me atrasar._Aceito chegar atrasado com meu café.Desliguei sentindo-me melhor e com um sorriso nos lábios. Eu estava muito cansado quando desembarquei, mas só precisava pegar um táxi para chegar ao endereço do hospital. Encontrei-a no refeitório, tomando café. Sentei ao seu lado e a abracei com toda saudade. Falei em seu ouvido que estaria ali para apoiá-la. Beijei-lhe os lábios e segurei sua mão com força.Sua avó se recuperara, mas outra pessoa ficara mal dessa vez. Um acidente no Brasil com Tamires novamente abalou as certezas de Rebeca, apenas alguns dias depois da minha volta. Eu já estava desempregado quando recebi a notícia, por isso, tinha mais tempo livre para visitá-la. Embarquei novamente para o meu país. Sentia-me um pouco culpado por não ter dado a Tamires a atenção que merecia desde que a deixei. Fiz indevidamente promessas, desesperado com a possibilidade de perdê-la com alguma morte repentina e ver aumentar minha culpa. Mas, eu estava errado, ela não queria de mim mais do que eu também sentia. Depois de uma última conversa, explicou-me que desejava estar sozinha. Suas palavras me libertavam finalmente para poder só enxergar claramente Rebeca em minha mente. Era difícil amar quando ainda se tem um parênteses não fechado no coração.Mas, dessa segunda vez, será que a teria me esperando? Eu não merecia, depois de ter feito a opção de regressar para ver Tamires. Veio um frio na barriga e medo de não ver mais em seus olhos todo amor que me mostrara e eu ainda queria.Quando toquei sua campainha de manhã, senti receio de encontrar os olhos frios e afugentadores da chefe que todos aprenderam temer. Eu não queria ter posto Rebeca novamente para dentro da caixa.A empregada atendeu e pediu um instante. Depois, recebeu autorização para abrir. Subi pelo elevador do prédio até o vigésimo andar. Quando abriu, a mulher parecia visivelmente agitada, nem mesmo esperou que entrasse e correu para a cozinha dizendo exclamações em espanhol. Fechei a porta assustado e segui atrás. Rebeca estava reclinada, se apoiando na beira da bancada de granito, em posição de quatro com a perna. No chão, havia sangue por toda parte em grandes poças e vidros espalhados. Seu pé descalço se esvaia em sangue como uma goteira, mas Rebeca pareceu esquecer-se disso quando nossos olhos se encontraram e se sustentaram por alguns segundos. Ela voltou a olhar o chão e pulou em um pé só para buscar o pano de prato em cima da pia, mas não o alcançou._Quer que eu chame o médico, senhora? _ a mulher estava realmente assustada com a quantidade de sangue, mas Rebeca pareceu não se estranhar com isso e disse que estava liberada por todo o dia. Sua voz não era fria, apenas distante e cansada. A empregada pegou o casaco e saiu, ainda pouco convicta de que Rebeca ficaria bem. _Não deveria estar cuidando de outra pessoa?_ perguntou-me com mágoa, esticando ainda o braço para alcançar o pano.Caminhei com os sapatos por cima do vidro e ela se recolheu, intimidada pela proximidade. Facilmente a suspendi nos braços. Ainda estava de camisola de seda branca e tinha o cabelo úmido, caindo nos ombros. Estava com o rosto completamente fechado. Não se sentia feliz por me ver? Eu tinha voltado!Tirei o vidro da sola do seu pé e fiz um curativo com algodão e esparadrapo que encontrara em uma caixa no banheiro por sua indicação. Quando terminei, ajoelhado em sua frente, levantei os olhos e encontrei os seus mais serenos._Você precisa de alguém que cuide de você... _ falei baixinho, com o rosto próximo ao seu._Eu não posso precisar... _seus olhos cintilaram, úmidos. _ Por que quando você vai embora, eu fico quebrada como esse copo e meu coração sangrando. Eu sorri, a imagem era demasiadamente trágica para uma mulher tão pragmática, mas atingiu em cheio minha emoção pela sinceridade com que confessava._Nunca mais vou te ferir._ afastei seu cabelo do rosto com as duas mãos. _Eu quero que seu coração me ame. Eu... te amo, Rebeca. _Mas... _ ela ousou argumentar, mas beijei-a matando suas palavras de dúvidas com meus lábios. _ Eu senti tanto a sua falta. _Abraçou-me. _Eu nunca mais vou renunciar você para ninguém._Segurou meu rosto. _Kali, ninguém te ama mais que eu._Então, eu quero todo seu amor. _coloquei seu braço ao redor do meu ombro e a tomei novamente nos braços até o quarto. Beijei-a, sendo completamente seu agora.
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